CURRICULUM, PATRONO E TEXTO

Adalberto Franklin Pereira de Castro (28.04.62) nasceu na pequenina povoação de Santo Antônio, no município de Uruçuí (PI), na casa dos avós maternos. Três dias após o nascimento, foi trazido para o Maranhão, onde já moravam seus pais - Martinho Alves de Castro e Iracema Pereira de Castro -, pessoas do campo. Aos cinco anos, quando a família se transfere para a cidade de Balsas, inicia-se nas primeiras letras com sua tia-prima Socorro. Aos sete anos (1970) começa o curso primário na escola "Joca Rego" e, no ano seguinte, vai para a escola "Coelho Neto". Em janeiro de 1972 (aos 9 anos) vem com a família para Imperatriz, onde o pai gerenciava uma companhia seguradora. Em Imperatriz, conclui o primário na escola "Estado de Goiás"; faz quinta e sexta séries no colégio "Ebenézer"; conclui o primeiro grau e inicia o segundo na escola "Fortaleza". O segundo grau, conclui na escola "Amaral Raposo". Impossibilitado de deixar Imperatriz para estudar o curso desejado, desiste de graduação superior.
Paralelamente aos bancos escolares, sempre estudou muito. Autodidata desde os 11 anos, "devorava" tudo que lhe chegava às mãos: revistas, jornais, livros, os mais variados. Aos 13 anos, estuda vida e obra de Castro Alves. Daí foi um passo para Fagundes Varela e os romances do indianismo. Vieram também os clássicos como Vieira, Balzac, Sófocles, Homero...
Dos 15 para os 16 anos, muda de pendões. Vêm, então, Thomas More, Nietzsche, Comte... sem contar Machado de Assis (quase toda a obra), Érico Veríssimo, Rubem Braga, Vinícius, Quintana... e mais Millôr, L.F. Veríssimo, Jurivê (cá da Casa, a quem lê desde os 12 anos).
Cultivador e admirador da cultura nordestina: música, prosa e verso: Elomar, Xangai, Alceu, Sílvio Romero, Patativa do Assaré, Ivanildo Vila Nova...
Doutras bandas e épocas diferentes, Santo Agostinho, Gandhi e Gustavo Gutiérrez. E livros: de História, Antropologia, Sociologia, Religião, Língua e Jornalismo. Livros em geral. Livros à mão cheia.
Ocupações:
Aos 10 anos, trabalha numa papelaria da família. Aos 12, entra para um oficina tipográfica (também da família), que dirige após os 15 anos, começando aí o aprendizado de editor. Publica diversos livros, dos outros. Participa da fundação do jornal católico "Sinais dos Tempos", em 1983, sendo seu editor e depois redator até 1990. De 1986 a 1988, secretário de redação, redator e editor do diário: "O Progresso". Membro da Pastoral da Comunicação das dioceses de Carolina e Imperatriz. Colabora em publicações locais, regionais e nacionais. Pesquisador da história do Tocantins maranhense, sobre o que já publicou alguns trabalhos. Atualmente é redator de telejornais da TV Imperatriz (Mirante/Globo), coordenador do Movimento de Cursilhos de Cristandade do Brasil na Diocese de Imperatriz (1988-1991), secretário-executivo da Associação dos Municípios da Região Tocantina e acadêmico de História na UEMA. Casado desde 1984 com Rosinha (Rosa de Sousa Castro). Três filhos: Marcos Vinício (1985), Eduardo (1989) e Mariana (1990).

 

PATRONO: DUNSHEE DE ABRANCHES
Poeta, jornalista, sociólogo, internacionalista, parlamentar e professor. Nasceu em São Luís em 02.09.1867. Abolicionista e republicano. Foi promotor de justiça em Barra do Corda e Grajaú. Publicou mais de 120 trabalhos, de diversos gêneros.

 

A PUBLICAÇÃO LITERÁRIA EM IMPERATRIZ
Até 1972, quando Edelvira Barros lançou o seu ‘‘Eu, Imperatriz’’, não se tem registro de qualquer outro livro de imperatrizenses. A pequena cidade, que despertou a partir do início dos anos 50 com a ligação rodoviária para o Nordeste, e se agigantou com a abertura da Belém-Brasília, não construíra tradição literária.
Como produção local, registra-se, porém, as sete obras literárias creditadas a Manoel de Sousa Lima, imperatrizense nascido em 1889. Das obras de Sousa Lima somente se tem certeza da publicação do livro poético ‘‘Tupinambás’’. E isso deve ter ocorrido somente quando ele não mais residia em Imperatriz - viveu maior parte da vida em Boa Vista (atual Tocantinópolis, TO), onde mandava seu tio, o famoso padre João, chefe religioso e político que chegou a deputado estadual. Também conhecido como professor Sabóia, Souza Lima foi um destacado literato e intelectual em sua época.
Ao mesmo tempo em que em Carolina, Barra do Corda e Grajaú despontavam os maiores nomes da literatura regional, publicavam-se jornais e acontecia a efervescência cultural sulmaranhense, em Imperatriz o amor à cultura e às artes não conseguia projeção, ou, no dizer de Carlota Carvalho (‘‘O Sertão’’, 1924), ‘‘é o lugar em que há menos cultura intelectual e mais desprezo às letras’’.
Prova disso seria o fato de que na constelação da intelectualidade maranhense deste século apenas Sousa Lima ganha referência nos livros históricos. Ele sempre aparece entre nomes consagrados como Orestes Mourão, Souza Bispo, Zeca Leda, Claro Maria de Sousa, José Queiroz, Parsondas de Carvalho, Nélson e Othon Maranhão, Rui Carvalho, Alfredo de Assis, Thucydides Barbosa...
Não foi sem méritos que Sousa Lima foi membro da Academia de Novos de São Luís e da Casa de Humberto de Campos, de Carolina. Entidades equivalentes a academias de letras.
A historiadora Edelvira Barros afirma, entretanto, que há exagero na afirmação de Carlota Carvalho sobre o nível cultural de Imperatriz. Exagero certamente deve haver. Mas é certo também que a cultura em Imperatriz não se destacara tanto quanto nas outras cidades da região.
Desde Sousa Lima, as iniciativas literárias que se tem conhecimento foram registradas pela própria Edelvira. Dois ou três jornais manuscritos entre os anos 30 e 50 e a realização de eventuais saraus literários. Creio que nada de maior expressão.
Do final dos anos 50 até o início dos anos 70, entende-se que a única preocupação no município foi o seu crescimento populacional e as novas oportunidades de trabalho e de enriquecimento. Era o período da grande transformação, da condição de município inexpressivo e desprezível (chamada de ‘‘Sibéria maranhense) à de maior do interior do Estado.
Nos anos 70 essa situação começa a mudar. Em 3 maio de 1970 José Matos Vieira e Jurivê de Macedo colocam em circulação o primeiro jornal impresso da cidade, ‘‘O Progresso’’, com circulação semanal. E com ele começam a aparecer os poemas, as crônicas e muitos outros escritos e escritores.
Aparece, então, a primeira e mais importante publicação do período, o livro ‘‘Eu, Imperatriz’’, em 1972. Marcou pelo ineditismo do conteúdo e pelo porte editorial. Mas pouca coisa se publicou até a chegada dos anos 80. Lembro-me apenas de ‘‘Veredas dos oprimidos’’ (Horácio Vilanova, poemas) e ‘‘Nono mês’’ (Durão, poemas).
‘‘O Progresso’’ exerceu um relevante papel em suscitar a publicação avulsa dos literatos da cidade. Edmilson Franco destacou-se nesse sentido, através de sua página semanal nesse jornal. Muitos poetas, contistas e cronistas que, apesar de até hoje não haverem publicado livros, ficaram e são conhecidos por seus trabalhos mostrados em ‘‘O Progresso’’, onde Jurivê de Macedo projetou-se como o mais conhecido jornalista do sul e sudoeste do Estado.
Na década de 80, porém, ocorreu um ‘‘surto’’ de publicações, favorecidas talvez pela introdução de impressoras off-set nas oficinas gráficas da cidade. Quase 30 livros foram publicadas nessa década. E vários nomes começaram a despontar. Até 1985, as principais publicações foram feitas por Ribamar Silva, Livaldo Fregona, Benedito Batista Pereira, Domingos Cézar e Vito Milesi (que teve o seu livro ‘‘Da cidade grande ao sertão’’ lançada em nível nacional pela editora Sem Fronteiras, de São Paulo).
Na segunda metade da década aconteceu a maioria dos lançamentos. E novamente aí figuram Livaldo Fregona, Ribamar Silva e Domingos Cézar, ao lado de Tasso Assunção, Leonildo Alves, Gilmar Pereira, Ribamar Fiquene, Ulisses Braga, Carlos Brito, Frank Barros e Manu Rolim. Este último na literatura de cordel.
Favorecida pelo surgimento da Academia Imperatrizense de Letras, em 1991, e pela implantação da Ética Editora, os anos 90 deram aproximadamente cem livros a Imperatriz, trazendo à cena muitos nomes. A principais publicações foram feitas por Adalberto Franklin, Affonso Gregory, Agostinho Noleto, Benedito Batista, Carlos Ociram, Edelvira Barros, Edmilson Sanches, Francisco Lima Soares, Henrique Guimarães, Iracilda Silva Viana, Iranini Ramos dos Santos, João Renôr, Jonas Ribeiro Neto, José Breves, José de Ribamar Fiquene, José Luiz, Leonildo Alves, Livaldo Fregona, Lourival Serejo, Luciney Moraes, Marcelino de Melo, Neneca Motta Mello, Raimundo Trajano Neto, Ribamar Silva, Sálvio Dino, Sebastião Negreiros, Siney Ferraz, Ulisses Braga, Válter Rocha de Andrade, Vito Milesi, Waldemar Pereira, Zeca Tocantins e Zequinha Moreira.
O papel de fomentadora literária desempenhado pela AIL pode ser comprovado pela constatação de que dos quase cem livros publicados em Imperatriz nessa última década do século XX, mais de quarenta são de acadêmicos. A importância da Ética Editora também fica patente com a publicação de 68 dessas obras.
Cabe destacar o relevante papel de estimulador da literatura e do fazer cultural desempenhado por Edmilson Sanches, o idealizador da AIL, a partir da primeira metade da década de 80. Também José Geraldo da Costa, pessoa de múltiplos conhecimentos técnicos e educacionais, instigador de atividades educacionais e sociais e também membro da AIL.
Uma entidade merece também ser registrada como fomentadora de produções e mesmo publicações literárias a partir da metade da década de 70: o Grupo Literário de Imperatriz - Gruli, onde se juntaram diversos jovens em discussões sobre arte da escrita, chegando a publicar diversos trabalhos. Do Gruli, nasceu o ‘‘Festival de Poesia, Crônica e Conto’’, que aconteceu durante 12 anos e em suas últimas edições recebeu inscrições de candidatos de mais de vinte estados brasileiros, apesar da constante falta de apoio e do descaso do poder público municipal.
Um aspecto a ser considerado, no entanto, é que a literatura produzida em Imperatriz hoje não é genuinamente imperatrizense. A grande maioria dos literatos chamados ‘‘imperatrizenses’’ nasceram em outras localidades. Alguns chegaram com suas famílias migrantes; outros, a trabalho, aqui permaneceram. São os chamados ‘‘imperatrizenses por adoção’’.
Uma verificação estatística envolvendo apenas os membros da Academia Imperatrizense de Letras reflete essa situação: dos 29 membros no final de 1999, apenas três são realmente imperatrizenses. Treze são maranhenses de outras localidades. Dos treze não maranhenses, cinco são nordestinos de outros estados (Paraíba, Alagoas, Pernambuco, Ceará e Piauí); três são tocantinenses (antes goianos), um gaúcho, um capixaba, um paulista e um mineiro, além de um italiano naturalizado.
Somente com a segunda geração da AIL é que esse quadro tenderá a mudar, quando então o perfil cultural de Imperatriz estará mais definido e sólido, a partir da fazer cultural de seus próprios filhos, descendentes dos migrantes, filhos ‘‘adotivos’’ desta cidade.
Um bom sinal de hoje é a preocupação com a qualidade literária. Percebe-se facilmente que o nível das publicações tem melhorado, tanto em conteúdo quanto em apresentação gráfica, e suas abordagens diversificadas.
Se 1972 foi um marco para a publicação literária de Imperatriz, pode-se afirmar que esta última quadra do século XX foi a mais importante da cultura imperatrizense.
Ficam estes registros para uma posterior pesquisa e análise mais acurada, que poderão apontar outros e novos aspectos da projeção literária de Imperatriz.

 

NO MUNDO DO LUA

Por vezes, e muitas vezes, viajo, me refugio, por dias inteiros, e noites adentro – vezes amanheço – num país sem fronteiras, sem barreiras, sem aduanas... ao mesmo tempo sem nome e com todos os nomes... sei lá... talvez a Pasárgada de  Lobato, “onde a mais doida fantasia é o cotidiano do homem normal”, no dizer de Casais Monteiro.
Bêbedo de encanto e de encontros, atravesso o Parnaíba, rumo pelas veredas dos pastos bons, de mananciais de águas transparentes; sigo as pegadas de Paula Ribeiro pelo Manoel Alves Grande e ladeio o Tocantins até a Carolina; acompanho os viajantes pelo vieiro das Figuras; descortino os segredos do Baixão, vislumbro a serra da Desordem, a taba do Governador; reconheço os caminhos de Leão Leda, deparo-me com as escaramuças de Nicolau... emparelho-me com os vareiros do Grajaú...
Na Barra do Corda de Isaac Martins, me transformo no tipógrafo d’O Norte, qual Séchard na obra de Balzac, e aí, com Souza Bispo, Maranhão Sobrinho e Parsondas de Carvalho, publicamos literatura e fazemos libelos contra os tiranos.
Encontro Jasão e os argonautas singrando o Mearim, em expedição vingativa, em busca do velocino, levado pra ilha do Maranhão pelo pirata lord Cochrane... O duque de Caxias, cruel, mandando trucidar os balaios... Os sertanejos derramados pelas matas, em êxodo feito pela perversa polícia de Benedito Leite...
Personagens e lugares que povoam minha mente. Que vão e vêm, não exatamente nessa ordem... Geralmente sem cronologia ou lógica de tempo e espaço. O descendente antes do precedente, por que não? Ora, que é o tempo? E o espaço?
Reais ou imaginários?
Sinto-me como Vítor Gonçalves Neto, sempre viajante, em busca de sua cidade misteriosa nunca encontrada; a colcha de retalhos “feita de um bairro de Paris com uma rua de Codó e as gôndolas de Veneza deslizando no rio Itapecuru”; país sem fronteiras que “se limita com Jerusalém e o Jardim do Seridó”; ao mesmo tempo “Teresina e Alexandria”. Lugar onde “de um lado se fala hebraico e do outro a língua tupi com budistas de mãos dadas com a rainha Elizabeth cantando o Pisa na fulô”.
Onde o real e o imaginário?
Afinal, o que é a verdade? Não é ela também a fantasia?
Teria razão Lacan? Serei eu uma construção imaginária ou são esses instantes de loucura?